Entre o Virtuosismo e a Leveza: La fille mal gardée de volta ao público no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Há espetáculos que sobrevivem ao tempo não apenas pela beleza de sua música ou pela força de sua coreografia, mas porque conseguem preservar algo raro: a capacidade de encantar diferentes gerações. É exatamente este o caso de La fille mal gardée, um dos ballets mais tradicionais e queridos do repertório clássico mundial, que retorna ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro reafirmando a força artística de uma obra que une técnica refinada, humor e delicadeza cênica.

A montagem possui um significado especial dentro da história do Municipal. Desde 1983 — ano em que o título estreou na casa, até então apresentado apenas por companhias estrangeiras — já foram realizadas seis temporadas da obra, somando mais de 60 apresentações ao longo das últimas décadas. Mais do que um clássico do ballet, La fille mal gardée tornou-se parte da memória afetiva do público carioca e da própria trajetória artística do teatro.

Com atmosfera leve e narrativa divertida, o ballet se diferencia por sua capacidade de dialogar diretamente com o público. Sua música, elegante e espirituosa, traz também referências ao universo operístico, evocando obras como O Barbeiro de Sevilha e O Elixir do Amor, em uma construção sonora que combina lirismo, comicidade e dinamismo teatral.
Mas existe um aspecto que muitas vezes escapa aos olhos da plateia: apesar da aparência leve e fluida, La fille mal gardée está entre os ballets mais difíceis e exigentes do repertório clássico. Sua execução demanda bailarinos em altíssimo nível técnico e físico, capazes de sustentar, ao longo de toda a apresentação, uma combinação extremamente delicada entre precisão, velocidade, resistência e interpretação teatral.
Ao contrário de obras em que o virtuosismo aparece de maneira mais explícita e grandiosa, aqui a dificuldade reside justamente na naturalidade. Cada salto, cada equilíbrio, cada passagem coreográfica exige absoluto controle corporal para que a narrativa preserve frescor, leveza e espontaneidade. Há ainda uma exigência intensa de musicalidade, sincronismo e domínio da pantomima, elementos fundamentais para que o humor e a dramaturgia funcionem organicamente em cena.
Trata-se de um ballet que não permite dispersão técnica nem cansaço aparente. Os intérpretes precisam manter energia, precisão e qualidade estética do primeiro ao último ato, tornando La fille mal gardée uma verdadeira prova de maturidade artística para qualquer companhia. Talvez esteja justamente aí um de seus maiores encantos: fazer parecer simples aquilo que exige excelência absoluta.
Nesta temporada, a produção contará com a presença do maestro Jésus Figueiredo como regente, profissional reconhecido por um trabalho rigoroso de pesquisa e desenvolvimento deste repertório. Jésus realiza importante atuação na Diretoria Artística da casa, junto ao Arquivo Musical, colaborando para o fortalecimento da memória musical da instituição e para a valorização de materiais históricos fundamentais à construção artística das temporadas. Sua interlocução próxima com Ricardo Alfonso, ditetor do Ballet Contemporâneo de Santa Fé – Argentina e responsável pela concepção e coreografia da montagem, reforça a unidade entre música e movimento — elemento essencial em uma obra onde cada detalhe cênico depende diretamente da pulsação musical. Ricardo Alfonso retorna justamente com o título que tanto sucesso alcançou em 2024.
Em tempos marcados pela velocidade, pela hiperconexão e pela dificuldade crescente de experiências verdadeiramente sensíveis, assistir a um espetáculo como La fille mal gardée talvez represente algo maior do que uma simples ida ao teatro. É um convite ao encantamento. À leveza. À percepção de que disciplina, beleza e arte continuam sendo capazes de reunir pessoas em torno de uma experiência coletiva e profundamente humana.
E talvez resida justamente aí a função mais poderosa da Cultura: lembrar-nos que o setor é vital para uma sociedade sadia e que é formado e sustentado por artistas de alta performance que se dedicam integralmente a dar o seu melhor de corpo e alma ao público.
Ficha Técnica
Concepção e Coreografia: Ricardo Alfonso
Ensaiadores: Jorge Texeira, Mônica Barbosa, Celeste Lima, Deborah Ribeiro, Filipe Moreira e Hélio Bejani
Cenografia: Manoel dos Santos
Figurinos: Tania Agra
Iluminação: Paulo Ornellas
Regente: Jésus Figueiredo
Design Gráfico: Carla Marins
Direção Geral: Hélio Bejani
Direção Artística – Temporada 2026: Eric Herrero
Presidente FTM: Clara Paulino
Classificação: Livre
Acessibilidade
Serviço
La Fille Mal Gardée — Ballet e OSTM
Datas: 13/05, às 19h (Ensaio Geral) | 14 (estreia), 15, 16, 20, 21, 22 e 23/05, às 19h | 17 e 24/05, às 17h | 19/05, às 14h (Projeto Escola)
Local: Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Endereço: Praça Floriano, s/n° – Centro
Duração: 1h45 + intervalo
Classificação: Livre
Elenco
Lise – Juliana Valadão / Manuela Roçado / Marcela Borges / Tabata Salles
Colas – Cícero Gomes / Alyson Trindade / Rodrigo Hermesmeyer
Madame Simone – Edifranc Alves / Saulo Finelon
Alain – Alyson Trindade / Luiz Paulo / Rodrigo Hermesmeyer
Palestras gratuitas antes dos espetáculos
Eric Herrero


