Entre o Virtuosismo e a Leveza: La fille mal gardée de volta ao público no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
- Messias Martins
- 10 de mai.
- 3 min de leitura
Há espetáculos que sobrevivem ao tempo não apenas pela beleza de sua música ou pela força de sua coreografia, mas porque conseguem preservar algo raro: a capacidade de encantar diferentes gerações. É exatamente este o caso de La fille mal gardée, um dos ballets mais tradicionais e queridos do repertório clássico mundial, que retorna ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro reafirmando a força artística de uma obra que une técnica refinada, humor e delicadeza cênica.

A montagem possui um significado especial dentro da história do Municipal. Desde 1983 — ano em que o título estreou na casa, até então apresentado apenas por companhias estrangeiras — já foram realizadas seis temporadas da obra, somando mais de 60 apresentações ao longo das últimas décadas. Mais do que um clássico do ballet, La fille mal gardée tornou-se parte da memória afetiva do público carioca e da própria trajetória artística do teatro.

Com atmosfera leve e narrativa divertida, o ballet se diferencia por sua capacidade de dialogar diretamente com o público. Sua música, elegante e espirituosa, traz também referências ao universo operístico, evocando obras como O Barbeiro de Sevilha e O Elixir do Amor, em uma construção sonora que combina lirismo, comicidade e dinamismo teatral.
Mas existe um aspecto que muitas vezes escapa aos olhos da plateia: apesar da aparência leve e fluida, La fille mal gardée está entre os ballets mais difíceis e exigentes do repertório clássico. Sua execução demanda bailarinos em altíssimo nível técnico e físico, capazes de sustentar, ao longo de toda a apresentação, uma combinação extremamente delicada entre precisão, velocidade, resistência e interpretação teatral.
Ao contrário de obras em que o virtuosismo aparece de maneira mais explícita e grandiosa, aqui a dificuldade reside justamente na naturalidade. Cada salto, cada equilíbrio, cada passagem coreográfica exige absoluto controle corporal para que a narrativa preserve frescor, leveza e espontaneidade. Há ainda uma exigência intensa de musicalidade, sincronismo e domínio da pantomima, elementos fundamentais para que o humor e a dramaturgia funcionem organicamente em cena.
Trata-se de um ballet que não permite dispersão técnica nem cansaço aparente. Os intérpretes precisam manter energia, precisão e qualidade estética do primeiro ao último ato, tornando La fille mal gardée uma verdadeira prova de maturidade artística para qualquer companhia. Talvez esteja justamente aí um de seus maiores encantos: fazer parecer simples aquilo que exige excelência absoluta.
Nesta temporada, a produção contará com a presença do maestro Jésus Figueiredo como regente, profissional reconhecido por um trabalho rigoroso de pesquisa e desenvolvimento deste repertório. Jésus realiza importante atuação na Diretoria Artística da casa, junto ao Arquivo Musical, colaborando para o fortalecimento da memória musical da instituição e para a valorização de materiais históricos fundamentais à construção artística das temporadas. Sua interlocução próxima com Ricardo Alfonso, ditetor do Ballet Contemporâneo de Santa Fé – Argentina e responsável pela concepção e coreografia da montagem, reforça a unidade entre música e movimento — elemento essencial em uma obra onde cada detalhe cênico depende diretamente da pulsação musical. Ricardo Alfonso retorna justamente com o título que tanto sucesso alcançou em 2024.
Em tempos marcados pela velocidade, pela hiperconexão e pela dificuldade crescente de experiências verdadeiramente sensíveis, assistir a um espetáculo como La fille mal gardée talvez represente algo maior do que uma simples ida ao teatro. É um convite ao encantamento. À leveza. À percepção de que disciplina, beleza e arte continuam sendo capazes de reunir pessoas em torno de uma experiência coletiva e profundamente humana.
E talvez resida justamente aí a função mais poderosa da Cultura: lembrar-nos que o setor é vital para uma sociedade sadia e que é formado e sustentado por artistas de alta performance que se dedicam integralmente a dar o seu melhor de corpo e alma ao público.
Ficha Técnica
Concepção e Coreografia: Ricardo Alfonso
Ensaiadores: Jorge Texeira, Mônica Barbosa, Celeste Lima, Deborah Ribeiro, Filipe Moreira e Hélio Bejani
Cenografia: Manoel dos Santos
Figurinos: Tania Agra
Iluminação: Paulo Ornellas
Regente: Jésus Figueiredo
Design Gráfico: Carla Marins
Direção Geral: Hélio Bejani
Direção Artística – Temporada 2026: Eric Herrero
Presidente FTM: Clara Paulino
Classificação: Livre
Acessibilidade
Serviço
La Fille Mal Gardée — Ballet e OSTM
Datas: 13/05, às 19h (Ensaio Geral) | 14 (estreia), 15, 16, 20, 21, 22 e 23/05, às 19h | 17 e 24/05, às 17h | 19/05, às 14h (Projeto Escola)
Local: Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Endereço: Praça Floriano, s/n° – Centro
Duração: 1h45 + intervalo
Classificação: Livre
Elenco
Lise – Juliana Valadão / Manuela Roçado / Marcela Borges / Tabata Salles
Colas – Cícero Gomes / Alyson Trindade / Rodrigo Hermesmeyer
Madame Simone – Edifranc Alves / Saulo Finelon
Alain – Alyson Trindade / Luiz Paulo / Rodrigo Hermesmeyer
Palestras gratuitas antes dos espetáculos
Eric Herrero


