Cachaça: entre o reconhecimento internacional e os desafios dentro de casa
- Messias Martins
- há 1 dia
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Poucos produtos representam tão bem a identidade brasileira quanto a cachaça. Resultado de séculos de tradição, conhecimento artesanal e trabalho de milhares de produtores espalhados pelo país, ela deixou há muito tempo de ser apenas uma bebida para se tornar patrimônio cultural, turístico e econômico do Brasil.
Recentemente, um fato chamou a atenção do setor: o sucesso do Cachaça Fest realizado na cidade do Porto, em Portugal. O evento reuniu apreciadores, especialistas, produtores e formadores de opinião para celebrar a qualidade da cachaça brasileira e apresentar ao mercado europeu a diversidade e a sofisticação dos nossos alambiques. A repercussão demonstrou algo que o setor já sabe há anos: a cachaça conquistou definitivamente seu espaço no cenário internacional.
Em feiras, festivais e degustações pelo mundo, a bebida vem sendo reconhecida pela sua complexidade sensorial, pela riqueza de madeiras utilizadas no envelhecimento e pela forte conexão com a cultura brasileira.
Hoje, a cachaça ocupa um papel semelhante ao que o whisky representa para a Escócia, o conhaque para a França e a tequila para o México: um produto capaz de carregar a identidade de uma nação.
Mas enquanto o exterior descobre e valoriza a cachaça, uma preocupação crescente toma conta dos produtores brasileiros.
A manifestação recente da ANPAQ (Associação Nacional da Cachaça de Alambique) e de diversas entidades representativas do setor trouxe à tona um debate fundamental sobre os rumos da tributação dentro da reforma tributária brasileira.
O setor alerta para aquilo que considera uma distorção: a possibilidade de a cachaça de alambique, produzida majoritariamente por pequenos e médios produtores, ser penalizada por uma lógica tributária que não leva em consideração suas características produtivas, culturais e econômicas.
A preocupação não se limita ao impacto sobre uma bebida.
O que está em jogo é uma extensa cadeia produtiva que movimenta agricultura familiar, turismo rural, gastronomia, comércio, exportação e geração de empregos em centenas de municípios brasileiros.
Existe uma aparente contradição que merece reflexão.
Enquanto o mercado internacional enxerga valor agregado, autenticidade e potencial de crescimento na cachaça brasileira, internamente o setor teme perder competitividade justamente no momento em que conquista maior visibilidade global.
O sucesso de eventos como o realizado em Portugal demonstra que a cachaça vive uma fase de expansão de imagem e reconhecimento.
A bebida deixou de ser vista apenas como um produto regional para assumir posição de destaque entre os destilados premium do mundo. Porém, para transformar reconhecimento internacional em desenvolvimento econômico sustentável, é necessário que as políticas públicas acompanhem essa evolução. A valorização da cachaça não deve ser observada apenas pela ótica arrecadatória.
Ela precisa ser compreendida como uma ferramenta de promoção da cultura brasileira, de fortalecimento do turismo, de incentivo à agricultura familiar e de geração de riqueza para milhares de famílias.
O mundo está cada vez mais disposto a brindar com a cachaça brasileira.

A questão que permanece é: estaremos preparados para valorizar, dentro do próprio país, aquilo que o mercado internacional já reconheceu como um dos maiores símbolos da nossa identidade?
Essa é uma discussão que vai muito além dos impostos. Trata-se de decidir qual espaço queremos reservar para um patrimônio genuinamente brasileiro no futuro da nossa economia e da nossa cultura.



