top of page

Cachaça: entre o reconhecimento internacional e os desafios dentro de casa


Poucos produtos representam tão bem a identidade brasileira quanto a cachaça. Resultado de séculos de tradição, conhecimento artesanal e trabalho de milhares de produtores espalhados pelo país, ela deixou há muito tempo de ser apenas uma bebida para se tornar patrimônio cultural, turístico e econômico do Brasil.


Recentemente, um fato chamou a atenção do setor: o sucesso do Cachaça Fest realizado na cidade do Porto, em Portugal. O evento reuniu apreciadores, especialistas, produtores e formadores de opinião para celebrar a qualidade da cachaça brasileira e apresentar ao mercado europeu a diversidade e a sofisticação dos nossos alambiques. A repercussão demonstrou algo que o setor já sabe há anos: a cachaça conquistou definitivamente seu espaço no cenário internacional.


Em feiras, festivais e degustações pelo mundo, a bebida vem sendo reconhecida pela sua complexidade sensorial, pela riqueza de madeiras utilizadas no envelhecimento e pela forte conexão com a cultura brasileira.


Hoje, a cachaça ocupa um papel semelhante ao que o whisky representa para a Escócia, o conhaque para a França e a tequila para o México: um produto capaz de carregar a identidade de uma nação.


Mas enquanto o exterior descobre e valoriza a cachaça, uma preocupação crescente toma conta dos produtores brasileiros.

A manifestação recente da ANPAQ (Associação Nacional da Cachaça de Alambique) e de diversas entidades representativas do setor trouxe à tona um debate fundamental sobre os rumos da tributação dentro da reforma tributária brasileira.


O setor alerta para aquilo que considera uma distorção: a possibilidade de a cachaça de alambique, produzida majoritariamente por pequenos e médios produtores, ser penalizada por uma lógica tributária que não leva em consideração suas características produtivas, culturais e econômicas.

A preocupação não se limita ao impacto sobre uma bebida.


O que está em jogo é uma extensa cadeia produtiva que movimenta agricultura familiar, turismo rural, gastronomia, comércio, exportação e geração de empregos em centenas de municípios brasileiros.

Existe uma aparente contradição que merece reflexão.


Enquanto o mercado internacional enxerga valor agregado, autenticidade e potencial de crescimento na cachaça brasileira, internamente o setor teme perder competitividade justamente no momento em que conquista maior visibilidade global.


O sucesso de eventos como o realizado em Portugal demonstra que a cachaça vive uma fase de expansão de imagem e reconhecimento.


A bebida deixou de ser vista apenas como um produto regional para assumir posição de destaque entre os destilados premium do mundo. Porém, para transformar reconhecimento internacional em desenvolvimento econômico sustentável, é necessário que as políticas públicas acompanhem essa evolução. A valorização da cachaça não deve ser observada apenas pela ótica arrecadatória.


Ela precisa ser compreendida como uma ferramenta de promoção da cultura brasileira, de fortalecimento do turismo, de incentivo à agricultura familiar e de geração de riqueza para milhares de famílias.

O mundo está cada vez mais disposto a brindar com a cachaça brasileira.

A questão que permanece é: estaremos preparados para valorizar, dentro do próprio país, aquilo que o mercado internacional já reconheceu como um dos maiores símbolos da nossa identidade?


Essa é uma discussão que vai muito além dos impostos. Trata-se de decidir qual espaço queremos reservar para um patrimônio genuinamente brasileiro no futuro da nossa economia e da nossa cultura.

TN-2.png

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

email_branco_edited_edited_edited.png
whatsapp_edited_edited.png

55 21 994764717 

bottom of page